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Colunas do Aurores
Postado por Oz em 28th Novembro 2005 @ 16:14 em Colunas | 49 Comentários

O Aurores começa hoje a publicar textos de sua primeira coluna; logo após um final de semana muito agitado para todos os pottermaníacos. Lançamento de livro e de filme em dias consecutivos. Ufa! Não dá nem pra respirar.
Acompanhem-nos nessa jornada rumo ao desconhecido!
Hoje: Crítica de Harry Potter e O Cálice de Fogo.
*Em todo o país milhares de jovens (e adultos e idosos e etc…) se submeteram a todo o tipo de tortura para poder conferir o quarto filme da saga em “primeiríssima mão”. Filas imensas, sessões à meia noite, lugares longínquos, guerras de pipoca, gritaria e, principalmente, os terríveis comentários de “Ei! Não era assim no livro!”.*
Antes de qualquer coisa: se você ainda não viu o filme, por favor, não leia a crítica. Ou leia e vá preparado: o roteiro muda muito!
Bom saber que tive a sorte de começar essa coluna numa semana tão agitada para o mundo Potteriano. Estréia de filme e lançamento de livro quase coincidiram nesse final de semana.
Em todo o país milhares de jovens (e adultos e idosos e etc…) se submeteram a todo o tipo de tortura para poder conferir o quarto filme da saga em “primeiríssima mão”. Filas imensas, sessões à meia noite, lugares longínquos, guerras de pipoca, gritaria e, principalmente, os terríveis comentários de “Ei! Não era assim no livro!”.
E esses comentários, garanto, são piores do que qualquer contradição grotesca que o filme possa trazer em relação aos livros. Cada vez que alguém dizia “O quê? Cadê a cena em que o Harry derruba um pouco de tinta na roupa?” ou “Nossa! Mas o não era o Neville que preparava o gelricho!”, minhas mãos se contorciam numa vontade enlouquecida de enfiar meu tênis na boca da pessoa.
Confesso que às vezes preferiria que fosse mantido o tom do livro ou que gostaria de ver uma cena “X” específica; mas as mudanças na história são fundamentais para um filme. Temos que lembrar que isso não é “uma filmagem da história de J.K. Rowling”: é uma versão da história.
Vamos começar imaginando que você nunca leu Harry Potter e só pôde acompanhar a saga até agora através dos filmes. Você enfrenta duas horas e vinte minutos de película e, exatamente nos minutos derradeiros, é revelado um plano secreto envolvendo um personagem meramente citado durante a história, sua mãe depressiva e uma troca de lugares em Azkaban. Isso tudo, é claro, acompanhado da revelação de que havia um homem preso na mala de Bartô Crouch Jr, que era o verdadeiro Alastor Moody. Opa! Tem mais! Temos que descobrir como se deu a idéia desse tal Bartô Crouch Jr. de ir pegar o Harry e tentar adivinhar todos os seus passos durante o filme. Ufa! Seria uma conclusão realmente digna de filmes com roteiros “criminosos”, como Van Helsing.
As mudanças são feitas para atrair o público que nunca leu os livros e, acreditem ou não, eles são maioria. Isso não significa, é claro, que Harry Potter e o Cálice de Fogo seja um filme burro; muito pelo contrário: a história se encaixa perfeitamente. Pistas e mais pistas são despejadas para público a respeito da trama central e os cortes bruscos só parecerem bruscos, acreditem, para quem já leu o livro e esperava muito mais do roteiro.
Vamos agora aos termos práticos!
Quem viu o filme deve ter notado cenas comuns em qualquer escola e um comportamento comum a qualquer adolescente. Numa cena específica (fantástica, aliás) Mike Newell não hesita em mostrar que Harry e Rony estavam olhando diretamente para a bunda (eu disse a bunda!) das garotas da Beauxbatons. Numa outra cena, Fred e Jorde se atracam no chão após uma frustrada tentativa de colocar seus nomes no cálice de fogo; envoltos por um círculo de estudantes que – entre risos – proclamam: BRIGA! BRIGA! BRIGA! BRIGA! (Ou o tradicional: Porrada! Porrada! Porrada! Do Brasil).
É portanto um feito admirável que Mike Newell tenha conseguido (finalmente e mais que seus antecessores) dar a Hogwarts o clima do que ela sempre foi: uma escola.
Os diálogos entre os alunos estão completamente descontraídos; situação obviamente acentuada pela melhoria nas atuações dos atores “mirins”. Emma Watson (Hermione) está boa como sempre (quem achar sua interpretação caricata, pode consultar o final da primeira tarefa no livro e ver o quão exagerada é sua reação diante da reconciliação de Rony e Harry) e Rupert Grint (Rony), melhor do que nunca. Dentre os três, Daniel Radcliffe parece ser o que evoluiu menos; mas isso não significa que não tenha melhorado: melhorou. Até chorar ele chorou! Inclusive podemos notar que Harry, de certa forma, começa a ganhar auto-confiança e a se parecer psicologicamente com seu pai (“Vocês querem que eu abra o ovo? Querem que eu abra? Quem quer que eu abra?”) Só pareceu não se importar muito com Voldemort ali na sua frente na cena do cemitério, reerguido, dançando “Macarena” e tudo mais. Preso por uma estátua da Morte “herself”, ele não parecia tentar mais do que fazer cócegas na foice. Eu arriscaria dizer até que estava achando Voldemort muito sexy.
Ah! Claro! Voldemort! Lá estava ele! Confesso que fui no cinema só para ver o Voldie ressurgindo. E o que eu senti estava quilômetros de distância de decepção. Quem consegue se decepcionar com uma atuação tão histérica de um sempre tão calmo (e brilhante) Ralph Fiennes? Mesmo com toneladas de látex na cara, ele conseguiu criar um Voldemort expressivo que mescla momentos de extrema fúria (com tom irônico) e uma calma ensaiada, de quem esperou 14 anos na forma mais deprimente que um ser pode passar até que voltasse a ser o que era. E ele é, não se esqueçam, um vilão. Qualquer traço sexy e elegante do personagem mora exclusivamente no imaginário dos leitores; o livro, creio eu, não é muito sutil quando diz que ele se tornou algo que não é humano.
Moody também está muito bem no filme, com um pequeno problema: seu olho mágico não parece outra coisa senão… mecânico! Até mesmo os efeitos sonoros de sua “visão de raio X com Zoom Digital” são mecanizados. Muito bem interpretado por Brendan Gleeson , Bartô Crouch Jr. (transformado em Olho-Tonto) apresenta uma sutil diferença do verdadeiro Moody, no qual damos apenas uma espiada de longe no final do filme. Não seria essa diferença entre o tom dos personagens (apesar da aparição relâmpago do segundo) um sinal de que Moody cumpriu (e muito bem) seu papel no filme?
Os recursos utilizados pela direção estavam presentes em todos os momentos, enquadramentos que saem da frente para o fundo (e vice-e-versa), câmeras andando pelos cenários de maneiras inventivas (ou demasiadamente clássicas)… tudo para dar mais dinamismo à história. Inclusive certo personagem ganhou um “tique nervoso” para que a trama principal ficasse menos forçada na hora das revelações finais.
E aliás, que final, não? Arrisco dizer que a cena em que todos percebem que Cedrico está morto é muito mais emocionante do que a descrita no livro. Harry e Cedrico ressurgem na arena, caídos e feridos, ao som dos aplausos efusivos dos presentes. Até que Fleur percebe o que se passa e grita. Pouco a pouco as palmas dão lugar a gritinhos e choros e lamentações. Uma cena muito bem dirigida, acredito eu. É, inlusive nessa cena, que temos a confirmação que o filme nos trouxe uma Cho Chang muito mais humana do que o livro. E (e me arrisco mais ainda dizendo isso) acho que era exatamente esse o tom que J.K. Rowling queria dar inicialmente à sua personagem – apenas acabou mal interpretada.
Lamento muito informar-lhes, masssssss… Victor Krum é a parte fraca do núcleo dos campeões. Exatamente quando achei que aquela Fleur (que, nem de longe, se parece com a “belezura” descrita nos livros) fosse assumir o papel de elo fraco. Felizmente, Krum tem só uma ou duas falas; as quais balbucia com seu péssimo inglês (o que está de acordo com os livros), mas sem emoção alguma, como se estivesse preocupado em tentar lembrar as palavras do script em seu bolso. Ele parece, no entanto, muito mais simpático nesse filme do que no quarto livro. Assim mesmo, Stanislav Yanevski (o ator que interpreta Krum) é o elo fraco do quarteto pra mim.
Outro mérito muito importante do roteiro, da produção e da direção é o agrupamento de personagens sem importância definida nesse livro. Arrisco dizer que poucos personagens foram esquecidos. Estão todos lá: Snape, como sempre divertidíssimo (batendo na cabeça dos alunos com um livro, numa das cenas mais cômicas do filme); McGonagall (engraçadíssima, sem perder o tom); Dumbledore (mais presente do que nunca, parecendo entender a urgência da situação de Harry); Hagrid; Máxime (deliciosamente interpretada por Frances de la Tour (que parece não ter medo de soar ridícula em certos momentos, e de uma forma mais humana); Filch; Madame Nor-r-ra; Fawkes; Bartô Crouch Pai; Nagini; os comensais; Parvati; Padma; Gina; Fred e Jorge, Murta… Até mesmo Flitwick se fez presente! E Rita Skeeter apareceu muito mais do que eu achava que seria possível (embora tenha me desapontado sua história como animaga ilegal não ter sido contada. Não tomaria mais que um minuto. Me pergunto como Hermione fará no quinto filme). Parece que é o mínimo que se pode fazer, mas vocês não sabem o quanto é duro adicionar todos esses elementos (dando a todos eles cinco minutos de fama) num filme de duas horas e meia.
Quer saber sobre o Neville? Vá para a próxima página!
Neville Longbottom finalmente ganhou seu destaque merecido num filme, aparecendo por diversas vezes em ótimas cenas cômicas e dramáticas (uma pena que tenham escolhido um rosto tão feio para ele. O ator mal consegue falar por detrás daqueles dentes). Numa das melhores cenas do filme, após ele achar que o guelricho que deu a Harry não funcionara e que o amigo havia se afogado no lago, Neville dispara em desespero profundo: “EU MATEI HARRY POTTER!”. Numa alusão à – já esquecida pelo filme anterior – fama do personagem principal.
Criaturas digitais como Dobby, Winky, a esfinge e os explosivins tiveram que ser cortados do filme. Não apenas por causa do tempo da película, mas por que animar esse tipo de personagem sai caro e toma tempo do processo de produção. Provavelmente atrasariam ainda mais o lançamento do filme ou ficariam mal realizados. Sem esses elementos, a equipe de efeitos pôde se empenhar muito mais no excelente dragão Rabo Córneo Húngaro e em detalhes como os livros voando na biblioteca, bruxos em vassouras ao fundo, o estádio da Copa Mundial de Quadribol e a decoração mágica do Baile de Inverno.
O Baile de Inverno ficou muito divertido. Sua importância para o diretor fica evidenciada com a criação de três músicas exclusivas pela banda “As Esquisitonas”, formada por roqueiros do cenário britânica de bandas diversas. Como se não bastasse isso, são três ótimas músicas, que refletem, mais uma vez, o cuidado da equipe em mostrar que aquela era uma festa para adolescentes.
A briga entre Rony e Hermione é simplesmente genial.
EI! Se você não leu o sexto livro, eu sugiro que não leia o parágrafo abaixo.
Essa briga, aliás, parece estar completamente afinada com os acontecimentos do sexto livro (o que agrada a alguns e desagrada a outros). Harry, perdoem-me por dizer isso, cumpre nesse filme o papel de melhor amigo de Hermione; confidente, eu diria. Em várias cenas ela parece consultá-lo a respeito de certas coisas. Abraços? Claro! Mas o que há de tão erótico num abraço entre melhores amigos?
E quanto à parte técnica?
A trilha sonora está ótima, talvez não muito original, mas no clima exato. Pode ser que esteja faltando um pouco de magia, mas a tensão ficou garantida.
O destaque do filme? A fotografia… é claro! Que não se centra no azul e nem no amarelo; mas numa mistura de tons acinzentados nos momentos mais sutis e mais tensos e tons mais festivos nas horas mais alegres. Enquadramentos excelentes e figurinos impecáveis ajudaram a compor a cena.
Nesse filme está mais explícito do que nos outros o relacionamento entre o trio principal. E, o que é mais importante ainda: o relacionamento do trio com outros estudantes de Hogwarts. Dessa vez todos agiam como alunos de uma escola e não como bonecos de papelão ao fundo que pareciam assistir apreensivos à passagem dos personagens principais. O filme ganhou vida e a história ganhou a profundidade digna de um diretor muito bem escolhido.
Se o filme tivesse três horas de duração eu ficaria menos irritado com certos cortes abruptos. Mas se o filme tivesse três horas de duração talvez cansasse aqueles que não são tão fascinados pela inacabada “heptalogia” de J.K. Rowling.
Nesse filme o problema não é o roteiro: mas o tempo. Enquanto em O Prisioneiro de Azkaban, cerca de uma hora foi desprendida para a seqüência final, o Cálice de Fogo nos fornece alguns míseros minutos na presença do tão esperado Lorde das Trevas. Uma aparição pífia do labirinto que foi logo vencido e uma chegada relâmpago das delegações estrangeiras.
Não gostar de O Cálice de Fogo só porque “era diferente do que eu imaginava” seria um sinal muito grande de egocentrismo. Todos nós, fãs, pelo tempo gasto e a dedicação à série, nos sentimos um pouco donos dela. Mas às vezes devemos dar o braço à torcer: não seríamos capazes de fazer um filme que agradasse aos fãs mais do que esse em duas horas e meia de película. Devemos lembrar que a história que amamos está nos livros. O filme é um bônus, um presente, uma diversão extra. Não que devamos deixar de ser exigentes… não. Não devemos apoiar qualquer porcaria marcada pela franquia; e o Cálice de Fogo passa longe de ser uma porcaria.
Num certo momento, enquanto Harry caminha pela floresta, Hermione e Hagrid (se não me engano) entoam ao fundo o hino de Hogwarts. Um detalhe gentil de um filme que foi feito para as massas, mas não se esqueceu da massa de fãs.
Espero que gostem da coluna e deixem comentários! Respondo aos mais interessantes na próxima atualização. Abraços a todos vocês.
Oz.
Artigo impresso de Aurores.Com: http://www.aurores.com/news
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