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Uma Longa Queda

Num mundo de tantas realidades contrastantes, não há ser humano gozando 100% de suas faculdades mentais que não tenha desejado, nem ao menos por um instante alucinado, estar a sete palmos de terra.
Em momentos difíceis, para alguns, aparentemente não há verdade mais reconfortante do que a morte e quando essa verdade se transforma em sua única saída para todos os seus problemas, acabam encurtam o caminho longo que separa a longa estrada da vida da escuridão da morte.
Uma Longa Queda é um livro sobre quatro suicidas em potencial. Para as pessoas acostumadas com o jeito Pollyana de ser, essa temática pode soar extremamente de mau gosto e definitivamente, não irá entrar para sua lista de leituras logo após O Pônei Falante.
Voltando a idéia de que o mundo nada mais é do que milhares de realidades que contrastam de maneira gritante entre si, gostando ou não, há que se aceitar a idéia de que algumas pessoas simplesmente não estão felizes e são praticamente incapazes de pensarem em outra coisa além da morte.
Porém, não estamos falando do grupo mais propenso à fila do purgatório e, portanto, espere algumas reviravoltas conforme as páginas forem viradas.

Após demorar tanto para terminar o livro, já me sinto quase íntima dos protagonistas, é o tipo de livro que vai deixar um buraco na minha realidade. Com o que eu vou me distrair durante as aulas teóricas de Fotografia? Outros livros virão, mas nada que me fizesse sentir tão em casa quanto a história de Martin, Maureen, Jess e JJ.

O SUICIDA “MEU-MUNDO-CAIU”.
Em primeiro, sinto uma obrigação de falar sobre o Martin Sharp. Pois bem, imagine só: você tem uma família feliz (uma mulher amável e duas filhas adoráveis, tudo parece até comercial de margarina), é apresentador bem sucedido de um programa na televisão britânica, tem todas as garotas bonitas aos seus pés e praticamente não há nada com o que você pudesse se preocupar.
Aí, sem que você possa perceber, entra a garota de quinze anos que diz ter dezesseis e é exatamente aí que tudo acaba pra você.
Você perde emprego, carreira, filhas, esposa, fama, sucesso, dinheiro, fica exposto como Aquele-que-pega-garotas-de-15-anos e para completar: você vai preso.
Após ser solto, conseguir um emprego como entrevistador num programa meia-boca, num canal mais meia-boca ainda, você fica preso a uma subvida que geralmente só demonstra algum sinal cardíaco quando uma matéria sobre seu comportamento imoral e vergonhoso sai em algum jornal.
E esses são os ótimos motivos pelos quais Martin Sharp está considerando se jogar do Topper’s House na noite do ano novo.

A SUICIDA SEM ESPERANÇAS.
Também existe Maureen, a mulher de 51 anos que quando nasceu, aparentemente estava destinada ao sofrimento. Não é como se ela tivesse nascido na lavoura e obrigada a trabalhar desde os dez anos, porém, tente imaginar a situação: mulher muito católica resolve cair no pecado número X (qualquer coisa a ver com a castidade – eu não lembro dos mandamentos, mas sei que existe um que é algo como se guardar para o casamento) e a única vez em que ela resolve fazer uma pequena ação de genes X + Y, a genética acaba indo bem demais e gerando um filho. Oh, ótimo, um filho! Só que esse filho nasce com problemas que o impedem de falar, se mover, se expressar…Resumindo, Maureen dá a luz a um vegetal e o seu digníssimo pai dá no pé, deixando Maureen sozinha.
E desde então, essa é a vida de Maureen. Cuidar de Matty, limpar Matty, alimentar Matty e tudo isso, sem poder ouvir nem ao menos um obrigado e muito menos ganhar um abraço.
Maureen tem seus motivos para querer jogar-se do Topper’s House na noite no ano novo e seu motivo é deixar de ter esperanças de que um dia algo irá mudar.

A SUICIDA PORRA-LOUCA.
Jess é o tipo de personagem que aparece, você não sabe de onde e nem de como, mas ela aparece com a intensidade de um soco na boca do estômago. Jess quer se matar por causa de Chas. Ou talvez seja por causa de Jen. Talvez, também seja porque esse parece ser o lance do momento e Jess está mudando de idéia a toda hora.
Jess é uma adolescente deslocada numa festa de velhos drogados de ano novo, na qual compareceu apenas porque alguém disse que Chas, o ex-namorado, estaria lá. Por um momento, você sente vontade de bater na testa da menina e escrever com esferográfica vermelha: NÃO SE MATE POR UM HOMEM! Mas Jess é que nem um formigueiro, quanto mais você cutucar, mais formigas sairão até o ponto em que você não conseguirá controlar.
Então, Jess não conseguiu encontrar Chas naquela festa no Topper’s House e já que está lá, por quê não dar um pulo do alto do prédio para comemorar?

O SUICIDA ARTÍSTICO.
Ninguém entende a profundidade simbólica representada através da semiótica que existe nos entregadores de pizza em diversas histórias. Em filmes pornôs, os entregadores de pizza são constantemente seduzidos por uma mulher de meia idade que não faz você sabe o quê há muito tempo. Em Rose Red, filme escrito por Stephen King, sua única participação como ator na trama foi entregando pizza. Sinceramente, não sei o que faria sem os entregadores de pizza do The Sims, porque nenhum dos meus Sims tem muita experiência na arte de cozinha.
Você se pergunta agora: O quê há de tão encantador e fascinante que vai além da minha compreensão na natureza simplória de um entregador de pizza?
É aí que surge JJ. Ao primeiro olhar, parece um simples garoto americano tentando sobreviver na Inglaterra. Na segunda olhada, você perceberá que ele ainda é um garoto americano tentando sobreviver, só que dessa vez, o verbo sobreviver pode ser aplicado de maneira literária.
JJ talvez não tenha um motivo tão profundo quanto Maureen ou Martin para atirar-se do Topper’s House, porém, ele sabe que quer o suicídio. Pois bem, muita gente legal cometeu suicídio e quando você está num país estrangeiro, sem o colegial completo, sua banda está separada, sua garota terminou com você e tudo o que lhe restou foi uma simples função de entregador de pizza, a única opção plausível de se sair dessa vida com algum vestígio de dignidade e dando cabo da própria vida.

E a queda deles será longa, um todo de 300 páginas que li com muito prazer e divertimento. Se eu pudesse descrever rapidamente sobre a moral por trás das linhas, diria que o livro é sobre esperança. Pois nenhum deles parece ter esperança de que algo irá mudar em sua vida e com a ajuda um do outro, a situação vai se revertendo aos poucos.
Leitura recomendada com diversas passagens engraçadas, totalmente escrito em primeira pessoa com trechos na visão de cada um dos protagonistas.

- Eu tenho um troço no cérebro. Um negócio chamado CCR - O que, obviamente é a sigla de Creedence Clearwater Revival, uma das minhas bandas favoritas e fonte de grande inspiração para mim. Não me pareceu que houve um grande fã do Credence ali. Jess era muito nova, eu não precisava me preocupar com Maureen, e Martin era o tipo de cara que só teria desconfiado de alguma coisa se tivesse dito que eu estava morrendo de um ABBA incurável.

  • em Livros
  • Setembro 17th, 2006

1 Comment comentários para "Uma Longa Queda"

Luciano falou...

Nick hornby eh uma especie de Messias, ah algo vivo nos livros dele, eh atemporal, naum importa sua idade ou aonde viva uma hora vc diz “isso foi escrito pra mim”

Grande Abraço

  • Setembro 26th, 2008 as 3:04 pm

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